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Sobre o Preconceito

O que escrevo agora não tem o propósito firme de mudar as coisas de lugar porque sei que este é um fato impossível. Quero chamar o leitor desta coluna para pensar sobre um assunto polêmico, o preconceito. Crime silencioso, impune, e muitas vezes praticado e exaltado por grupos inteiros ao nosso redor. Estive pensando durante esses dias em como se sentem as vítimas do preconceito. Durante uma conversa não muito agradável, o meu interlocutor disparou: "Se você quer viver em um mundo sem preconceitos, arrume sua mala e vá morar em Marte! (...) Você acha o preconceito um absurdo? Então comece a escrever sobre isso!". Pois cá estou eu, escrevendo sobre isso, porque acho o preconceito um absurdo e não quero deixar de achar.
O que será que passa na cabeça de uma pessoa honesta e de bem, trabalhadora, mas que por ser negro, muito pobre, homossexual, ou por fazer parte de qualquer outra minoria, vive à sombra de um pesadelo? Vive com medo. Como se tivesse mesmo feito algo de errado. Por que as pequenas minorias tanto lutam para serem respeitadas nesse mundo ao redor de nós? Por que buscam quotas, porque buscam espaço? Por que, acima de qualquer coisa, buscam o simples respeito?
Como entender as razões que levam algumas pessoas a condenarem negros, mulheres, homossexuais e outros grupos, gratuitamente, passando muitas vezes, da violência verbal para a violência física propriamente dita? Neste momento da reflexão, peço ajuda ao leitor para responder a seguinte questão: em favor de que ou de quem, o preconceito ainda existe?
Será que estas pessoas assim o fazem apenas porque estão acostumadas a repetir, a copiar, geração após geração, um modelo de discriminação? Talvez. Quando se está inserido em um contexto, as coisas têm mesmo uma outra conotação. Pode-se até tentar nadar contra a maré, mas parece que chega um momento em que é impossível e, muitas vezes sem perceber, deixa-se levar.
Quem não tiver pecado que atire a primeira pedra
Ou será que tais pessoas são altamente atormentadas em segredo, ou mesmo inconscientemente, na área que se refere justamente ao alvo de seu preconceito?
Quem viu o filme REVELAÇÕES, viu o suplício do personagem de Anthony Hopkins, que após ter feito uma declaração envolvendo os negros - a qual gerou um mal-entendido na universidade em que lecionava - foi demitido sob a acusação de preconceito racial. O personagem de Hopkins era filho de negros, mas tinha a pele clara. Por que o personagem não se apressou em dizer que não podia ter preconceitos justamente por ser filho de negros? Ao contrário, ele aceitou sua demissão sem mais contestações. Mais adiante, o filme nos remete ao passado do personagem e mostra uma cena em que ele nega à sua noiva e futura esposa a cor da pele de seus pais, pois já havia perdido outra mulher que amava no dia em que esta tinha conhecido a sua mãe. Pois bem, o personagem preferiu negar suas origens e perder seu emprego, pois já havia entendido, anteriormente, os prejuízos que a cor da pele de seus pais poderiam lhe causar. Preferiu ser tomado como preconceituoso e ser punido por isso.
Talvez essa comprovação assuste. As pessoas mais atormentadas são justamente as que mais discriminam, na tentativa de "livrar o umbigo" de tudo isso, chamando a atenção para outrem, para assim livrar a atenção de si mesma. Expondo os outros e dessa maneira escondendo suas próprias mazelas.
Parece que é permitido passar por cima da integridade mental e moral de um indivíduo em prol do conforto de um grupo. Não se considera que aquele comentário ou piada tão "inocente" ou mais gravemente, aquela reivindicação tão ferrenha para que a "moral" se cumpra, pode estar encobrindo uma violência muda, mas que não deixa de ser violência, e que alguém está sendo severamente atingido por ela. Porque os alvos desse crime muitas vezes se sentem atingidos, violentados, surrados e expostos em praça pública. Sentem vergonha de serem quem são, uma culpa qualquer que nem sabem explicar e desejam ter uma cor de pele ou uma condição de vida diferente.
Outra questão é: qual a nossa função nisso tudo? Combater o crime do preconceito ou, em vez disso, compactuar emudecidos, mesmo entendendo que este ato somente amplifica o problema?
Acredito que seja função de cada um de nós combater o preconceito já instalado. É escolha nossa ver as coisas continuarem como estão. Existem um milhão de caminhos para combater o preconceito e os demais crimes silenciosos ao redor de nós. Em tudo há um preço. Há o preço da omissão e há o preço de falar. Talvez a última escolha seja mais vantajosa, uma vez que pode mudar alguma coisa de lugar.
E não quero ter que ir para Marte para criar meus filhos num mundo sem preconceitos, ou antes, sei que é impossível este mundo. Diferenças sempre vão existir, mas precisam ser respeitadas. É aqui nesse mundo vário que gostaria de criar meus filhos, ensinando o respeito e a igualdade que se deve ter para com as diferenças.

Ketsia Medeiros
kbmedeiros@hotmail.com
"Eu que não me lembrara de dizer que sem o medo havia o mundo"
(Clarice Lispector)