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O livre-arbítrio
Uma questão que há muito tempo permeia os meus inquietos pensamentos é: até que ponto nós temos autonomia para resolver quais serão nossos passos na vida? O tão falado livre-arbítrio, proclamado como bandeira por tantos, existe de fato? Somos responsáveis racional e conscientemente pelas nossas escolhas? Onde o âmago das escolhas? Em que medida nossas escolhas são verdadeiramente legítimas? E me refiro desde a escolha do sabor do sorvete até a escolha da profissão e outras tantas, importantes e definitivas.
Clarice Lispector, sabidamente estava “atrás do que fica atrás do pensamento”. A questão é: o que há por trás do saber consciente? O que permeia as decisões? Meras conveniências? Pode ser, acredito nas conveniências e sensos de oportunidade, mas até mesmo aí penso que existe um “atrás do pensamento”.
Piorei as coisas? Vamos colocar em exemplos. Vou começar exemplificando a minha própria escolha profissional. Sou dentista por formação, com pós-graduação em Patologia Oral. Trabalho como professora, essa a minha mais gritante vocação. Por que escolhi ser professora? Por que, dentre tantas opções – inclusive mais bem remuneradas – escolhi esta? Não, não tenho a resposta, mas a pergunta já me rende horas de reflexão. Sim, eu poderia ter feito um milhão de outras escolhas, dentro da minha própria formação, mas algo me encaminha com uma força contra a qual não posso (nem quero) lutar.
Certa vez, conversando com uma amiga, professora de inglês, ela disparou: “eu poderia ganhar muito mais dinheiro traduzindo textos numa editora em que trabalhava, mas como poderia falar pros meus filhos com verdade, sobre qualquer assunto, se eu tivesse seguido um caminho por mera conveniência financeira?”. Todas as fichas caíram de uma só vez. Do jeito que ela falou, parecia que não havia muita liberdade de escolha, se ela seguisse a própria verdade.
Tenho a impressão de que a única escolha possível está em seguir ou não seguir a própria verdade. E onde ela se situa? De onde vem e quem a constrói dentro de nós? Não sei. Parece que a “nossa verdade” vem de um desejo maior que não é consciente, não é racional, não é facilmente justificável. O que pensamos ser escolhas, na realidade devem ser somente os resultados da nossa própria história de vida.
Segundo a Psicanálise, quem rege os nossos desejos conscientes é uma instância maior, o inconsciente, que nos influencia em direção à satisfação de desejos que foram recalcados no passado. Ou seja, o sujeito não tem liberdade total para se comportar independentemente dos fatos ao redor, passados e presentes. Tudo isso age em conjunto e tudo isso misturado resulta no que somos e nas escolhas que fazemos na vida.
Dessa forma, as escolhas se situam entre querer ou não querer o que se deseja, ou desejar ou não desejar o que se quer. E até mesmo em reconhecer o desejo, muitas vezes escondido atrás de imposições culturais, sociais, financeiras e outras tantas conveniências e “verdades” criadas por nós mesmos, que nos limitam e nos conduzem a caminhos que, quando concluídos, nos fazem questionar: “mas como vim parar aqui?”. E você, já começou a se questionar?
Ketsia Medeiros
kbmedeiros@hotmail.com
“Cada um cumpre o destino que lhe cumpre,
E deseja o destino que deseja;
Nem cumpre o que deseja,
Nem deseja o que cumpre.
(...)
Não tenhamos melhor conhecimento
Do que nos coube que de que nos coube.
Cumpramos o que somos.
Nada mais nos é dado.”
(Ricardo Reis – Cada um)