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Ser ou Não Ser Budista
Ultimamente a leitura de um livro chamado “Por que sou budista?”, cuja autora chama-se Soninha Francine tem ocupado muitos momentos do meu dia. Pra quem não se lembra, Soninha é aquela ex-VJ da MTV com carinha de criança, que hoje em dia faz comentários esportivos na ESPN (diga-se de passagem, melhor que muito marmanjo por aí – segundo meu próprio pai, que se acha um expert em futebol e adora os comentários da moça).
Mas voltando ao livro. De vez em quando recebo um livro de presente, seja de aniversário, natal, ou só porque alguém se lembrou de mim. Quando ouvi falar neste livro de Soninha, fiquei bastante curiosa a respeito e coincidência ou não, no último natal fui presenteada com ele. Embora ultimamente não tenha tido tempo de ler os últimos livros que ganho (o que me deixa muitíssimo triste), iniciei rapidamente a leitura de “Por que sou budista?” e ele não sai mais da minha cabeceira – nem da minha cabeça.
Sempre tive interesse pelo tema, mas quando pensava em ‘budismo’ algumas imagens me vinham imediatamente, como por exemplo, aquela estátua do Buda gordinho e simpático, dentro de um prato cheio de moedas. Afora essa imagem folclórica e simpatia duvidosa para ‘atrair a fortuna’, associava o budismo a uma vida bem modesta, e a um desapego material extremo. Com estas poucas informações, concluía: deve ser muito difícil ser budista, porque além de desapegar-se dos bens materiais, ainda ter que vestir aqueles lençóis cor de laranja e ficar em posição de meditação por horas. Definitivamente, isso não era para mim.
Mesmo com todas estas conclusões pessimistas, não consegui adiar a leitura do livro. Como se não bastasse o rico conteúdo, o livro foi escrito numa linguagem muito leve e acessível, o que ajuda em muito a compreensão de alguns fatos. Estou lendo aos poucos, voltando algumas partes, ainda não terminei a leitura. Mas preciso dizer que estou muito feliz com o que ando descobrindo.
Fiquei realmente surpresa e feliz ao saber que ser budista é (entre outras coisas) ser alguém que assumiu dois compromissos, fez dois votos:
- o voto de refúgio, no qual “assume-se o compromisso de renunciar a tudo aquilo que faz mal aos outros, de se empenhar em não causar algum mal”;
- o voto de bodisatva, quando “você se compromete a ajudar, a fazer o bem aos outros de todas as maneiras ao seu alcance”.
Dois compromissos tão simples não parecem tão difíceis de serem cumpridos, mas o são. Alguém que está lendo pode pensar: ‘mas eu nem sequer desejo mal a ninguém’. Sugiro que repense. Não desejar mal a mais ninguém nessa vida é algo praticamente impossível nos dias de hoje. Pois bem, esse é um exercício de nobreza humana, de crescimento espiritual, um exercício cristão mesmo. Há relatos de que Jesus Cristo, nos anos em que esteve sumido, teve ensinamentos com mestres budistas. Não duvido, há muitas semelhanças entre o budismo e o cristianismo.
Uma diferença que considero fundamental é que no Budismo não há castigo, ou antes, colhe-se o que se plantou: se fizeres o bem, colherás o bem; se fizeres o mal, é o mal que te acometerá. É a lei do karma. O karma é, por assim dizer, o conjunto de todas as reações às nossas ações. É o inevitável bumerangue da vida. Diferentemente do senso comum, que trata o karma sempre como algo negativo, o livro esclarece: “karma não é castigo, é decorrência”.
Agora sei que “Por que sou budista?” não veio parar em minhas mãos por mero acaso. Há algum tempo venho percebendo como é verdadeira a questão da ‘colheita das atitudes’. Tenho tido exemplos simples, mas fortes e marcantes. Tenho tentado também melhorar a vida das pessoas que estão ao meu redor, e na realidade percebo que são essas as mesmas pessoas que fizeram e fazem muito por mim, ou seja, as ações e reações têm acontecido naturalmente. É que fica fácil quando se convive com pessoas do bem: buscamos imitá-las. É um aprendizado de vida, um aprendizado espiritual, um ciclo que se expande e se renova no ar. Existe ainda, de minha parte, uma intenção que aos poucos está se transformando em gesto: ajudar também pessoas estranhas.
Enfim, não sei se me tornarei budista (muito provavelmente não, explicarei porque em uma outra oportunidade) nem escrevo para convencer ninguém. Ainda não sei quase nada sobre os ensinamentos, mas o que veio para mim tem um tom de verdade incontestável. Tenho uma certeza: não precisamos usar o lençol laranja, raspar a cabeça e sentar de pernas cruzadas por horas. Apenas o fato de comprometermo-nos a não fazer mal a ninguém, já nos causará ótimos benefícios. Podemos concluir que, entre outras coisas, ser budista é ser do bem e fazer o bem. Alguém aí se habilita?
Escreverei mais sobre o assunto, em breve.
Ketsia Medeiros
kbmedeiros@hotmail.com
"Um homem não é outra coisa senão o que faz de si mesmo"
(Jean-Paul Sartre)