Versão
em PDF
Paranóia Patológica...
"Quando esqueço a hora de dormir e de repente chega o amanhecer...
sinto a culpa que não sei de quê... Pergunto o que é que eu fiz? Meu coração não diz. Eu sinto medo. Eu sinto medo..." Pedindo toda licença poética ao ilustre compositor, este fragmento serve para trazer à baila uma das realidades vividas por a classe médica e odontológica na atualidade e, por conseguinte, pelos patologistas orais.
Recentemente, voltei à minha querida terra natal e deparei-me com um triste fato vivido por uma colega patologista. De maneira bem sucinta, tal profissional recebeu uma peça biopsiada de glândula salivar maior em seu laboratório cujo laudo histopatológico revelou tratar-se de adenoma pleomórfico. Conseqüentemente, procedeu-se a exerese da lesão e paciente foi proservada pelo clínico que realizou a biópsia. Depois de três anos, a paciente apresentou um novo crescimento na área e, assim, nova avaliação histopatológica foi feita com diagnóstico de carcinoma ex-adenoma pleomórfico. Sabe-se claramente que a recidiva de um adenoma pleomórfico pode ocorrer sob a forma de uma lesão maligna e que não possuímos ferramentas indicativas de tal curso clínico. Até aí, nenhuma novidade. Mas, somente até aí. A paciente, provavelmente orientada por influências externas, revoltou-se com o fato de não ter sido informada desta possibilidade e exigia ressarcimento devido a esta suposta "negligência". Não preciso nem expressar que o caso foi para na justiça e ao final do processo a interpretação do juiz foi a seguinte: "A paciente deveria ter sido orientada à respeito de tal possibilidade e a patologista deveria ter explicitado de maneira objetiva tal premissa em seu lado histopatológico. Bum Bum Bum! A patologista deve pagar uma indenização de..." Isso é uma fato verídico.
Primeiro ponto a considerar: a patologista sequer viu a paciente ou manteve qualquer tipo de contato físico com a mesma, a não ser pelos fragmentos biopsiados. Segundo ponto e o mais importante: temos que comunicar a todos os pacientes portadores de adenoma pleomórfico que a lesão pode recidivar sob a forma maligna? Isto está correto?
Permitam-me realizar outros questionamentos: um paciente que vai ser submetido a uma simples extração dentária deve ser informado que sobre a possibilidade de complicações anestésicas que poderão inclusive levá-lo a risco de vida? Esta é a forma correta de conduzir um paciente? Cada laudo realizado deve registrar notas e observações paranóicas para o curso clínico de cada lesão diagnosticada?
Poderia realizar outras tantas perguntas, mas paro por aqui. Infelizmente, há quem acredite no fato de que a instauração do medo é a melhor forma de se alcançar algumas coisas. Lamento muito que o descrédito da área de saúde tenha penalizado os bons profissionais e que todos sejam considerados como "mercenários, negligentes e congêneres" até que se prove o contrário. Faz-se necessário uma discussão urgente e abrangente sob esta temática, caso contrário, teremos que aprender a lidar com uma infeliz forma de lidar com nossos pacientes.
Para finalizar, faço minhas as palavras do saudoso Rui Barbosa:
"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto..."
Um grande abraço a todos,
Rivadávio F.B. Amorim
Editor Chefe - RBPO
diretor@patologiaoral.com.br