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Uma Visão Sobre o Câncer Bucal no Brasil
Nesta edição, a RBPO tem o prazer de trazer uma entrevista com a Professora Maria Cristina Cavalari, que nos fala um pouco sobre o câncer bucal e sua visão acerca dos programas nacionais de prevenção e detecção precoce.
Maria Cristina Cavalari - Professora de Estomatologia, Estomatologia Clínica e Coordenadora das Clínicas Odontológicas do Curso de Odontologia da Universidade Católica de Brasília.
e-mail: cristina@estomato.odo.br
1- Qual sua visão do problema câncer bucal no Brasil?
Segundo o INCA, a estimativa de incidência de câncer para 2005 no Brasil aponta o câncer de boca como o 8º mais freqüente entre os homens (com 9.985 casos estimados) e o 9º entre as mulheres (com 3.895 casos estimados). Porém, acho interessante mencionar os dados do "Registro Hospitalar de Câncer" que em sua última publicação (1994-1998) relatou que o câncer de boca é a 3ª localização de ocorrência entre as mulheres e a 7ª nos homens. Tal fato evidencia que 10% de todos os tumores que ocorrem em nosso país se desenvolvem nas estruturas da boca e seus anexos.
2-Qual sua avaliação dos programas de prevenção e detecção precoce do câncer de boca no Brasil?
No Brasil temos bons programas na área de câncer bucal, alguns oficiais, do Ministério da Saúde e Secretarias Estaduais e outros da rede privada, principalmente nas Faculdades de Odontologia e entidades associativas. Todos eles buscam o melhor atendimento ao portador dessa doença. Porém, observo que a responsabilidade da detecção precoce ainda está muito direcionada no auto-exame. Acredito que a conscientização social deste problema é salutar, entretanto podemos observar que muitos colegas ainda não estão devidamente preparados para atuar no diagnóstico precoce. Tivemos recentemente a oportunidade de trabalhar numa campanha de orientação profissional sobre o câncer bucal, promovida pelo Conselho Regional de Odontologia do Distrito Federal. Foi um trabalho muito interessante, onde o profissional foi orientado, através de cursos itinerantes gratuitos, como proceder em tal situação. A responsabilidade do diagnóstico precoce tem que ser partilhada entre o profissional e o paciente.
3-Porque essa crítica?
Quando se fala do auto-exame da mama enfatiza-se que a paciente deva procurar por nódulos indolores, na boca o câncer pode apresentar uma enorme variedade de aspectos clínicos, como nódulo, mancha branca, mancha vermelha, mancha com áreas brancas e vermelhas, mancha negra, úlceras com os mais variados aspectos, tudo isso fica extremamente difícil de ser passado ao leigo, principalmente se levarmos em consideração as variações da normalidade e/ou distúrbios do desenvolvimento que podem trazer sérias confusões, como a língua geográfica, o tórus, a papila foliada e outros.
4-Diante disto, qual seria a sugestão?
Deveríamos enfatizar o exame bucal realizado por Cirurgião-dentista, para isso poderíamos mobilizar os Conselhos Regionais e as 180 faculdades de Odontologia do nosso país. Assim, formaremos profissionais que tenham o hábito de examinar cuidadosamente todos os seus pacientes. Ressalto que este exame criterioso deveria fazer parte da rotina de atendimento, independentemente da queixa específica. Aos leigos poderíamos informar a necessidade desse exame e instigá-los a solicitar que seu dentista o realize.
5-E quanto à prevenção?
A gênese do câncer sempre esteve relacionada com os fatores de irritação crônica locais, associada a fatores tais como o uso do fumo e do álcool e também de substâncias químicas, tais como os alcatrões, conservantes de alimentos e poluentes. Hoje, com o desenvolvimento das pesquisas, sabe-se que a genética e a imunologia estão definitivamente ligadas ao aparecimento dos tumores em todas as espécies animais e, quase sempre, associadas aos vírus e agentes físicos e químicos. Por estes motivos acredito que cabe à Odontologia muito mais o trabalho com a detecção precoce do que idealizar técnicas de prevenção. Nos hospitais oncológicos ainda recebem-se pacientes com tumores muito avançados e com o empenho da Odontologia estaríamos fazendo "prevenção", diagnosticando esses tumores em sua fase inicial e propiciando cura para a maioria dos pacientes.
O tratamento e o prognostico do câncer bucal está reconhecidamente ligado ao grau de comprometimento do paciente com o tumor. Perspectivas otimistas de sobrevida chegam próximas a 100% de cura e estão diretamente relacionadas ao diagnóstico nas fases mais precoces do seu desenvolvimento, associadas às terapêuticas adequadas.
6-A atuação do Cirurgião-dentista estaria limitada somente ao diagnóstico precoce?
O Cirurgião-dentista pode e deve atuar em todas as fases do tratamento oncológico, ou seja, no pré, trans e pós-tratamento oncológico. No pré-tratamento além do diagnóstico precoce ele poderá, numa equipe multidisciplinar, preparar a boca do paciente para a cirurgia e, principalmente para a radioterapia, que deixa seqüelas importantes e permanentes. Durante o tratamento quimioterápico e radioterápico as mucosites podem ser evitadas ou minimizadas com a intervenção do Cirugião-dentista. E, finalmente, após as terapias oncológicas é esse profissional que poderá fazer próteses bucomaxilofaciais, estimular a salivação nos casos de hipossalivação, tudo isso para dizer o mínimo.