CAMPANHA DE POPULARIZAÇÃO DO AUTO EXAME DA BOCA - UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO, BRASIL (PARTE I)
POPULARIZATION OF ORAL SELF-EXAMINATION CAMPAIGN – UNIVERSITY OF SAO PAULO, BRAZIL (PART I) Fernanda C. S. de ALMEIDA1
Claudia CAZAL2
Thais Bianca BRANDÃO3
Maria Ercília de ARAÚJO4
Dorival Pedroso DA SILVA5
Reinaldo Brito e DIAS6
1Mestre em Patologia Bucal e Estagiária da Disciplina de Prótese Maxilo Facial (PMF) da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (FOUSP) e Grupo de Pesquisa em Reabilitação (GPR) Maxilo Facial- CNPq
2Doutora em Patologia Bucal e Estagiária da Disciplina de PMF da FOUSP e GPR Maxilo Facial- CNPq
3Aluna de graduação da Faculdade de Odontologia da USP
4Professora associada e chefe do Departamento de Odontologia Preventiva e Social da FOUSP
5Professor doutor da de PMF da FOUSP e líder do GPR Maxilo Facial- CNPq
6Professor titular da Disciplina de PMF da FOUSP e GPR Maxilo Facial- CNPq
Correspondência para: Fernanda C S de Almeida
e-mail: fernandacsa@uol.com.br
Av. Cardeal Motta, 1204
City América
São Paulo – SP
Cep: 05101-210
Tel. +55 (11) 9139 5272 / 3641 3158
Site GPR: www.usp.br/fo/gpr
Resumo
Os modelos de saúde bucal do Brasil estão pautados em ações assistencialistas e curativas, que, devido uma demanda crescente e recursos insuficientes, culmina numa assistência inadequada e omissão social por exclusão de parte da população necessitada. A Odontologia tem um grande desafio em sua frente no combate ao câncer de boca os profissionais tais como, médicos, fonoaudiólogos, psicólogos, nutricionistas, etc. devem ser nossos parceiros nas equipes multiprofissionais. Inspirado nesta filosofia foi criado o projeto de “popularização do auto-exame da boca”, executado em maio de 2005. Neste trabalho serão apresentadas suas experiências, repercussões e perspectivas futuras. A abordagem se constituiu principalmente da elaboração de um projeto de comunicação em massa, onde uma campanha foi o instrumento utilizado para provar que é viável fazer ações educativas nacionais em câncer de boca, captar recursos e agregar parceiros, devendo tomar um caráter permanente a partir de maio 2006. Palavras-Chave: prevenção primária, auto exame, câncer de boca, programas de prevenção
Abstract
Brazilian health programs are based in healing assistance models suffering with an increase plea and insufficient financial source, which ends with inadequate aid and social omission. Dentistry faces an important challenge against oral cancer and a multi-professional group constituted of dentists, psychologists, physicians, speech pathologists and nutritionists which must work together. This multi-professional approach was the method which inspired the “popularization of oral self-examination” project that happened in May 2005. Its experiences, repercussions and futures perspectives will be presented in this paper. The approach was focused in a popular campaign which served as instrument to prove the effectiveness of national educational actions in financial collection, and aggregating partners. This program intends to become a permanent action annually from the next year on. Keywords: Primary prevention, self-examination, oral cancer, prevention programs.
Introdução
A educação tem papel fundamental na construção da cidadania, tendo em vista que uma pessoa educada zela pelo seu bem estar e transmite seus conceitos a outros, servindo com veículo de transmissão de conhecimento. Por outro lado, todo tipo de informação e estímulo que promova questionamento, e não só pelos métodos da educação formal, deve ser levado em conta quando se fala deste processo (Marandino, 2005). Além disso, a educação depende de motivação (Freire, 1981), já que sem despertar interesse e vontade de aprender, essa se torna ineficaz. No que se refere à
Odontologia, é sabido que a educação e a motivação dos pacientes são maiores desafios para obtenção de mudança de hábito desses indivíduos (Almeida et al., 2000). É preciso entender que a educação em saúde bucal é essencial para que a Odontologia consiga reverter o quadro de doença bucal de nosso país, tendo a informação e a motivação como as grandes armas para vencer essa guerra. Os modelos de saúde bucal do Brasil estão pautados em ações assistencialistas e curativas, que, com uma crescente demanda e recursos insuficientes, resulta em serviços assistenciais inadequados e muitas vezes omissos, pois acaba excluindo parte da população necessitada de atenção. Como resultado deste equívoco, temos uma população adulta sem saúde bucal, essencialmente no que diz respeito à cárie e doença periodontal.
Quando se leva em conta o câncer de boca, os erros históricos são ainda maiores, sendo esta a doença mais grave que afeta a boca, ela foi incluída apenas há três anos no rol de responsabilidade da Coordenação Nacional de Saúde Bucal (Brasil - Ministério da Saúde, 2005).
Ao contrário do que se anuncia por muitos, o câncer de boca é um problema da classe odontológica, já que estes são os profissionais que com mais freqüência têm a oportunidade de examinar a cavidade oral, e, à medida que a falta de compromisso de nossa classe, somados aos erros políticos e estratégicos, refletem os mais de 80% de diagnósticos tardios e o grande número de óbitos e mutilações decorrentes dos cânceres de boca (Antunes et al, 2001). A prevenção primária, os diagnósticos clínico e histopatológico precoces e a reabilitação maxilo facial estão no quadro de obrigações da odontologia e cada cirurgião-dentista deve conhecer o assunto, suas possibilidades de atuação e os limites legais entre as profissões que atuam no tratamento desta patologia. Regulamentado pelo Código de Ética Odontológico, são muitas as áreas que o cirurgião dentista pode atuar, sendo, entretanto, o tratamento oncológico uma prerrogativa médica (Brasil. Resoluções CFM e CFO).
A odontologia tem um grande desafio em sua frente e no combate ao câncer de boca os profissionais tais como, médicos, fonoaudiólogos, psicólogos, nutricionistas, etc. devem ser nossos parceiros nas equipes multiprofissionais (Almeida et al, 2004). A “multidisciplinaridade” foi a filosofia inspiradora que norteou o projeto de “popularização do auto exame da boca”, do Grupo de Pesquisa em Reabilitação (GPR) Maxilo Facial do CNPq/ USP executado em maio de 2005 e que será apresentado a seguir com suas experiências, repercussões e perspectivas futuras.
Material e Métodos
O lançamento da campanha de popularização do auto-exame da boca foi precedido da elaboração de projeto apresentado à Universidade de São Paulo (USP) e a parceiros e colaboradores. Após convênios firmados, deu-se início a execução do projeto, em 14 de fevereiro de 2005. O mês eleito para lançamento da campanha foi maio, quando se comemora o dia mundial anti-tabaco (31 de maio).
O evento aconteceu concomitantemente a um grande simpósio de implantes e utilizando-se a estrutura já alocada para o mesmo, tendo em vista que o patrocinador da campanha (por parceria adquirida anteriormente com o projeto) era também promotor do simpósio.
As atividades acadêmicas e científicas foram organizadas e divididas durante três dias. No primeiro, um curso gratuito de atualização profissional foi ministrado para profissionais de saúde da rede pública e estudantes de Odontologia. Para facilidade, tanto de horário quanto de vagas para o curso, foi ministrado o mesmo conteúdo em dois turnos, manhã e tarde, de quatro horas cada.
O programa foi elaborado com experiências prévias da coordenação da campanha e abordou os seguintes temas: “Câncer de boca no Brasil”, “Propedêutica de cabeça e pescoço”, “Câncer de boca e processo de cancerização”, “Exames complementares”, “Reabilitação com implantes intra-orais, extra-orais e prótese”, e por fim, “É possível sobreviver e viver após o tratamento de câncer de boca?”. Uma ficha de inscrição contendo informações aos participantes, foi distribuída com auxílio de órgão da Secretaria de Saúde e da Universidade de São Paulo, devendo ser preenchida e enviada à coordenação da campanha com antecedência (Figura 1).
No segundo dia, foi promovido o I Fórum de Políticas Públicas em Câncer de Boca que discutiu com representantes da sociedade civil organizada, universidades, terceiro setor, associações e conselhos regulamentadores e representantes de profissões e governo, assuntos concernentes ao câncer de boca e suas peculiaridades. A platéia foi composta por convidados indicados pelas entidades presentes. Além das indicações e convites, foi possível que qualquer interessado se inscrevesse desde que solicitada com antecedência à coordenação do evento. Uma pauta prévia foi enviada por e-mail aos participantes cerca de cinco dias antes do fórum com finalidade de facilitar discussões entre a platéia e os convidados palestrantes. Para esta fase, os temas a serem discutidos foram divididos em: prevenção primária, diagnóstico precoce clínico e histopatológico, tratamento oncológico, reabilitação maxilo facial e comunicação em saúde. A moderação do fórum ficou a cargo do coordenador geral e um dos autores da campanha. As íntegras da pauta e da ata, assim como uma leitura crítica dos resultados do fórum tornar-se-ão tema específico e serão publicados oportunamente.
Ao fim do segundo dia, como resultado do fórum, quatro subcomissões foram organizadas: 1) comissão de prevenção primária do câncer de boca, 2) comissão de diagnóstico clínico e histopatológico precoces 3) comissão de reabilitação maxilo facial, 4) comissão de tratamento do câncer de boca. Estas subcomissões foram formadas de profissionais da saúde oriundos de todo território nacional, e deverão manter ativa a discussão sobre câncer de boca no decorrer do ano e gerar subsídios para o II Fórum que deverá acontecer em maio de 2006, quando serão discutidas suas conquistas e dificuldades.
No terceiro e último dia, atendendo demanda e expectativa da coordenação da campanha, iniciou-se discussão sobre procedimentos de reabilitação em cabeça e pescoço e o uso de recursos de alta complexidade. Três casos clínicos foram apresentados e os participantes e representantes de várias localidades do Brasil e entidades médicas e odontológicas discutiram dificuldades e possibilidades em reabilitar os pacientes mutilados na região de cabeça e pescoço.
Paralelamente à Campanha, a qual foi chamada projeto científico, foi executado um projeto de comunicação elaborado por equipe de marketing e assessoria de imprensa. Os roteiros e as definições de linguagem e dos objetivos perseguidos pelo projeto foram elaborados pela Coordenação Científica da Campanha.
As peças publicitárias resultado do trabalho conjunto da comunicação e da equipe científica foram: um folder explicativo sobre o auto-exame de boca (Figura 2), anúncios de revista sobre o tema, anúncios de rádio e de televisão. O projeto de marketing prevê dois momentos anuais nas ações de comunicação seguidos de períodos em que se mantêm as discussões em níveis basais. Este perfil de atuação é denominado no meio publicitário de “comunicação em ondas” e tem o objetivo de manter a pauta da discussão sem “desgastar” o assunto.
Os roteiros, a linguagem eleita para divulgação, o processo de conquista de parcerias, o apadrinhamento de artistas e celebridades, e os resultados detalhados do projeto de comunicação serão tema para uma segunda parte deste trabalho.
Resultados
O curso de atualização profissional, realizado no primeiro dia do evento, foi registrado oficialmente pela Comissão de Cultura e Extensão da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (FOUSP) na categoria “Difusão Cultural”. As aulas foram ministradas por 16 professores convidados que se dividiram entre os temas e horários dos cursos. O evento contou com cerca de 300 participantes por turno , entre médicos, dentistas, enfermeiros e estudantes de Odontologia, sendo que mais de 90% dos presentes eram cirurgiões-dentistas da rede pública de saúde.
Cerca de três meses depois do evento, aproximadamente ao fim do mês de agosto, foi concluída uma lista com os e-mails dos participantes com a finalidade de promover comunicados periódicos sobre o câncer de boca e as atividades da campanha pelo território nacional. A esta lista também foram somados os endereços eletrônicos dos parceiros e patrocinador da campanha.
O Fórum de Políticas Públicas contou com 100 pessoas sendo 56 dessas convidadas pela coordenação do programa. Deste evento resultou-se documento com diretrizes sugeridas em câncer de boca nos seguintes temas: 1) prevenção primária, 2) diagnóstico precoce clínico e histopatológico, 3) tratamento oncológico, 4) reabilitação maxilo facial. A partir dos temas, quatro subcomissões foram criadas com os temas discutidos e enumerado acima contendo no mínimo quatro e no máximo oito participantes os quais deverão se comunicar via internet e, futuramente, devem subsidiar as discussões do II Fórum em 2006.
Como resultado preliminar do Fórum pode-se verificar que seu principal foco de discussão esteve baseado no caráter multiprofissional e multidisciplinar das ações em câncer de boca, respeitando-se as áreas de competência de cada profissional e perseguindo a integração de pesquisa, ensino e extensão universitária. Ainda, as discussões abordaram temas de urgente e complexa atenção como à descentralização de informações e de recursos para o tratamento do câncer de boca pelo território nacional, na necessidade de criação de centros de excelência em prevenção, diagnóstico clínico e histopatológico precoce, tratamento e reabilitação em câncer de boca nas diversas áreas do país. Por fim, foi destacada a importância da união dos setores organizados da sociedade, sem desvincular o compromisso do Governo e da Universidade Pública na construção dos modelos em saúde.
Uma das discussões importantes e que diz respeito à Odontologia foi referente a importância de que a classe odontológica assuma sua culpa e admita que o desconhecimento sobre câncer de boca e suas forma de prevenção, da população em geral, é fruto de uma odontologia curativa e estética que, por décadas, esqueceu-se de exercer seu papel educador e de promotor de saúde na sociedade.
Outro tema tratado foi a urgência em se traçar políticas públicas de forma clara, e com ações de longo prazo em educação em saúde, um dos participantes afirmou que “Não se faz educação, não se muda conceitos e hábitos em campanhas curtas, em ocasiões e datas comemorativas” indicando a necessidade de programas permanentes de educação para que se obtenham os efeitos desejados. A íntegra do texto do Fórum pode ser acessada na “homepage” www.fo.usp.br.
A discussão de procedimentos de alta complexidade (terceiro dia) contou com médicos, dentistas e fonoaudiólogos, somando cerca de 40 participantes e 12 professores convidados. Tendo em vista que a maioria dos diagnósticos de câncer de cabeça e pescoço é tardia e, portanto, resultam em importantes mutilações, concluiu-se que estes pacientes necessitam de atenção e ações especiais, visto que a qualidade de vida e reinserção destes na sociedade devem ser preocupações freqüentes quando se discute câncer de boca em sua plenitude.
Do projeto de comunicação resultaram as peça publicitárias, que foram produzidas e pagas pelo patrocinador. Cerca de 1800 inserções na mídia foram alcançadas em três semanas de forma gratuita e que, se fossem pagas, custariam cerca de R$ 20.000.000,00 (Quadros 1 e 2). Vinte e três artistas e celebridades aderiram à primeira fase do projeto. Todos os resultados, estratégias e detalhes do projeto comunicação serão descritos em outra ocasião.
Quadro 1 - Mídias elaboradas e acordadas previamente à campanha pela assessoria de imprensa
Veículo
Tempo Expos.
Total inserções
Valor Total (em reais)
IstoÉ- anúncio
Indeterminado
7
33.800,00
Isto è Gente
Indeterminado
7
23.200,00
SBT- anúncio
6 meses/1 por dia
182
4.550.000,00
Rádio USP
12 spots/dia
410
28.700,00
Rádio J. Pan
3 spots por 12 dias
36
126.000,00
TV globo
3 filmes/dia
75
3.375.000,00
Veja São Paulo
Indeterminado
7
67.200,00
Revista Pense Leve
Indeterminado
14
42.720,00
O Est de SP/anúncio
Indeterminado
1
76.455,00
Rádio América
8 spots/ dia por 6 meses
216
86.400,00
Rádio Badeirantes
Rotativo
18
45.000,00
CNT
Spots/ até 05 dez
1256
502.400,00
Veja
Indeterminado
93
697.500,00
Produtora Oboré
505 rádios por 8 min
505
35.350,00
Total de spots (1256)
5024,00
Total de filmes (549)
41175,00
R$ 14.547.142,00
Quadro 2 - Mídias espontâneas resultantes dos “releases” à imprensa
Veículo
Total
Tempo e Espaço
Valor Total (em reais)
Revista
4
31/2 páginas
127.120,00
Site
5
5 páginas
22.300,00
Rádio
10
30" X 203
516.830,00
Telejormais
14
30" X 245
3.917.805,00
Jornais
4
41/2 páginas
74.491,00
Total
37
4.658.546,00
Discussão
Cerca de 11.000 novos casos de câncer de boca são estimados para este ano para o Brasil (Brasil - INCA, 2005). A boca é o sexto sítio de incidência entre os homens, mutilando e matando milhares de doentes todos os anos (Durazzo et al, 2005). Em contraponto a esta realidade, nunca houve em nosso país uma ação nacional de educação em câncer de boca, abordando de forma ampla e irrestrita suas causas, formas de prevenção e de diagnóstico precoce.
Por outro lado, muitas e importantes iniciativas regionais podem ser observadas e, mesmo com limitações de recursos e de área de cobertura, alcançando excelentes resultados. Os motivos pelo quais essas ações são isoladas e seguirem padrões distintos entre si pode ser resultado de somente em 2003 terem sido traçadas metas para saúde bucal no Brasil e, até hoje, ainda não existir uma política nacional clara e organizada de abordagem do câncer de boca, como foi afirmado pelo Prof. Dr. Dorival Pedroso da Silva à jornalista Leão (2005) em entrevista ao jornal da USP.
Outro aspecto curioso é que poucas dessas iniciativas são publicadas em literatura científica, já no fórum de políticas públicas durante a campanha houve argumentações sobre a importância de se levar à academia as discussões sobre câncer de boca e suas diretrizes públicas já que a Universidade é a formadora de opinião e disseminadora de conceitos.
Um rápido levantamento pode mostrar iniciativas pioneiras e muito interessantes, tais como a do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo, (São Paulo - CROSP, 2005); do Conselho Regional de Odontologia de Pernambuco, (Pernambuco - CROPE, 2005); da Secretaria da Fazenda do Mato Grosso (Mato Grosso - SEFAZ, 2005); da Associação Paulista de Cirurgiões Dentistas (São Paulo - APCD, 2005) ou da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo (São Paulo - SSSP, 2005). Todas as iniciativas citadas têm como uma das bases de suas atuações a inspeção oral, com ou sem prévia orientação sobre o tema de câncer bucal. Outro exemplo desse tipo de iniciativa foi relatado por Chinellato e colaboradores em 1995, projeto desenvolvido em cidade do interior de São Paulo.
Não há dúvida da contribuição dessas ações, muitas vezes “heróicas”, de grupos isolados. Entretanto, sem divulgação científica, sem troca de informações e experiências e sem articulação da esfera nacional de poder, o impacto desses esforços na saúde pública é discutível, pois ainda temos uma grande maioria de tumores sendo detectados tardiamente e este quadro tem mudado muito pouco nos últimos anos (Antunes et al, 2001; Durazzo et al, 2005).
Diferentemente dos trabalhos citados, o projeto de popularização do auto-exame da boca aqui descrito, estabeleceu metas com relação à educação em saúde baseando-se em conceitos de transposição didática do conteúdo científico (Marandino, 2005), e tendo como norte a afirmação: “Um programa efetivo de promoção de saúde é o único recurso do qual se espera a redução dos efeitos prejudiciais da desigualdade social sobre a saúde” (Antunes, 2005).
As ações em educação foram dirigidas tanto para profissionais quanto para o público leigo, abrindo mão da inspeção oral, por entender, com base em experiências de outros grupos, que este tipo de ação atende uma porcentagem pequena da população alvo, demanda grande quantidade de profissionais especializados para os exames e que os pacientes potencialmente portadores de câncer de boca e suas lesões precursoras não comparecem aos exames (Carvalho et al., 2002).
Desta forma, os temas eleitos como principais para uma educação em câncer de boca foram o auto-exame da boca, sendo também abordado seus principais fatores de risco como o tabaco e o álcool (Stewart, Kleihues, 2003).
Para dar credibilidade institucional, força de atuação e penetração, a coordenação da campanha procurou as chancelas de órgão governamentais, tais como Ministério da Saúde, Secretarias Estaduais e Municipais, além de conselhos e associações de classes profissionais. Esses selos de qualidade foram fundamentais, mas insuficientes, tendo em vista que nenhum recurso foi alocado por parte destes grupos para o evento. Assim, mais uma vez ficou comprovada a falta de diretrizes públicas em câncer de boca, com destinação de esforços e verbas governamentais.
Alguns desses órgãos parceiros disponibilizaram suas estruturas internas de mídia e suas listas de correspondência, o que possibilitou a comunicação para os profissionais do curso de atualização. Foi o caso da Prefeitura da Cidade de São Paulo, que divulgou o curso entre seus profissionais e do Governo do Estado de São Paulo, que através da Casa Civil, informou a disponibilização dos e-mails e sites das prefeituras paulistas através da página do governo (São Paulo - Casa Civil, 2005) possibilitando a presença de inúmeros representantes de outras cidades de São Paulo.
Apesar da colaboração com a divulgação do curso e da campanha, não houve por parte das Prefeituras e do Estado liberação dos profissionais para freqüentarem o evento, e, ainda assim, a freqüência média de participantes foi de 300 por horário. Este fato demonstra a necessidade e disponibilização dos funcionários públicos em se atualizarem sobre o tema em questão.
Uma experiência que mereceu destaque foi a parceria estabelecida entre a Universidade de São Paulo (USP) e duas faculdades particulares: Universidade Nove de Julho (UNINOVE) e Universidade Brás Cubas. Foram disponibilizadas vagas aos alunos de graduação e docentes das três entidades, o que possibilitou troca de informações e um intercâmbio entre as Instituições.
O fato de todos os inscritos no Fórum ter recebido a pauta do evento com cinco dias de antecedência por e-mail, permitiu que a discussão se tornasse mais dinâmica e proveitosa, tendo em vista as dificuldades de conciliarem-se as agendas de tantas autoridades e que a falta de objetividade poderia comprometer o andamento dos trabalhos.
O grande mérito do I Fórum de Políticas Públicas em Câncer de Boca esteve na união de conceitos e valores dispersos, mas conhecidos pela maioria dos profissionais, sobre o tema. Ainda, as presenças de representantes de diversos setores do governo e da sociedade reforçam o compromisso desses com a edição e execução de diretrizes públicas em câncer de boca. A íntegra do Fórum pode ser observada nos sites de diversos parceiros, ou no site da Faculdade de Odontologia da USP (www.usp.br/fo).
Atualmente, a comunicação e as estratégias empregadas têm gerado diversas consultas de colegas por todo o território nacional e, por isso, optou-se na elaboração de artigo específico e detalhado dessas ações a fim de colaborar com iniciativas futuras de outros grupos.
Por fim, após lançamento da campanha, foi firmado compromisso de seus idealizadores em manter a iniciativa. Uma nova logomarca, novos parceiros e patrocinadores e um projeto de longo prazo está em fase de elaboração e passa por processo de Registro junto ao Ministério de Ciência e Tecnologia. Em 2006, essa iniciativa genuinamente brasileira, nascida do sonho de docentes e alunos da USP, e apoiada e chancelada por órgãos governamentais, associações e sociedades de classes, terceiro setor, mídia e iniciativa privada, se prepara para sua etapa Internacional em alguns anos.
Conclusões
A campanha mostrou-se ser um instrumento útil em ações educativas nacionais em câncer de boca, captar recursos e parceiros. O uso da mídia e da comunicação foi fundamental para o sucesso da campanha, mas este êxito só foi alcançado porque estava firmado em diretrizes científicas e em um projeto de comunicação em saúde, os quais contaram com o desejo de atualização dos profissionais e alunos de graduação. Por fim, o futuro do câncer de boca no Brasil e as mudanças nos quadros de diagnóstico tardio, óbito e mutilações passam, inevitavelmente pela edição e execução de diretrizes e políticas públicas em câncer de boca.
Agradecimentos
Os autores e idealizadores da campanha agradecem à USP, especialmente FOUSP, FMUSP, HCFMUSP e Pró-reitorias de Pesquisa e Cultura e Extensão, pelo apoio. Ao esforço da comissão organizadora, composta de alunos e docentes, que possibilitou o sucesso da campanha, aos parceiros governamentais ou não, pela chancela, ao patrocinador Conexão Sistema de Prótese, aos artistas e celebridades por cederem suas imagens e concederem prestígio e credibilidade à nossa causa e à imprensa por, de modo geral, abrir espaço para a I campanha de popularização do auto-exame da boca.
Referências Bibliográficas
Almeida FCS, Regatão MC, Araújo ME. VIII Simpósio Internacional de Iniciação Científica da USP (2000). Educação em Saúde Bucal: Mudança de Conhecimento e Hábitos em Gestantes. Disponível em: http://www.usp.br/siicusp/8osiicusp/index_2000.htm. Acesso em 20 de Agosto de 2005.
Almeida FCS, Cazal C, Durazzo MD, Ferra AR, da Silva, DP. Radioterapia em cabeça e pescoço: efeitos colaterais agudos e crônicos bucais. Rev. bras. patol. Oral 2005;3(2):62-69.
Antunes JL. Título Mortalidade por câncer e desigualdade social em São Paulo [Tese de Livre-Docência]. São Paulo: Faculdade de Odontologia da USP; 2005.
Antunes JL, Biazevic MG, de Araujo ME, et al. Trends and spatial distribution of oral cancer mortality in Sao Paulo, Brazil, 1980-1998. Oral Oncol 2001Jun;37(4):345-50.
Brasil. INCa (2005). Disponível em: www.inca.gov.br. Acessado em 16 de Agosto de 2005.
Brasil. Ministério da Saúde (2005). Disponível em: www.saude.gov.br. Acesso em 16 de Agosto de 2005.
Brasil. Resoluções CFO (1999) e CFM (1998). Disponível em: http://www.jornaldosite.com.br/arquivo/leisaude/bucomaxilo.htm. Acesso em 20 de Agosto de 2005.
Carvalho RR, Durazzo MD, Tavares, MR, et al. XX Simpósio Internacional de Iniciação Científica da USP (2002). Câncer de Boca: Como detecta-lo precocemente? Disponível em : http://www.usp.br/siicusp/10osiicusp/cd_2002/ficha470.htm. Acesso em 09 de Setembro de 2005.
Chinellato LEM, Martha SN, Sant'Ana E, Kanô, SC, Maeda L, Porto VMC.
Programa de prevençäo do câncer bucal no município de Bauru, através do auto-exame. Rev. Fac. Odontol. Bauru 2005;3(1/4):143-5.
Durazzo MD, de Araujo CE, Brandao Neto J de S, et al. Clinical and epidemiological features of oral cancer in a medical school teaching hospital from 1994 to 2002: increasing incidence in women, predominance of advanced local disease, and low incidence of neck metastases. Clinics 2005;60(4):293-8.
Freire, P. Ação cultural para a Liberdade e outros Escritos. Paz e Terra, 5ª ed. São Paulo, 1981.
Leão I. A saúde começa pela boca. Jornal da USP; São Paulo 2005 agosto 22 a 28; 7-9.
Marandino M. A pesquisa educacional e a produção de saberes nos museus de ciência. Hist. cienc. saude-Manguinhos 2005, vol.12 supl, p.161-181.
Mato Grosso. SEFAZ (2005), Disponível em: www.sefaz.mt.gov.br. Acessado em 14 de Agosto de 2005.
Pernambuco. CROPE (2005). Disponível em: www.cro-pe.org.br. Acessado em 14 de Agosto de 2005.
São Paulo. APCD (2005). Disponível em: www.apcd.org.br. Acessado em 14 de Agosto de 2005.
São Paulo. Casa Civil (2005). Disponível em: www.saopaulo.sp.gov.br/linha/prefeituras.htm. Acessado em 14 de Agosto de 2005.
São Paulo. CROSP (2005). Disponível em: www.crosp.org.br/cancer_bucal. Acessado em 14 de Agosto de 2005.
São Paulo. Secretaria de Saúde de São Paulo (2005). Disponível em: www.saopaulo.sp.gov.br. Acessado em 14 de Agosto de 2005.
Stewart BW & Kleihues P (Eds). World cancer report. Lyons: IARC Press; 2003
Figura 1 - Ficha de inscrição para I Curso de Difusão Cultural em Câncer de Boca e I Campanha de Auto-Exame de Boca
Figura 2A-2B - Modelos de folder utilizado demonstrando como realizar o auto-exame de boca (A – Frente e B – verso)