LEVANTAMENTO DAS BIÓPSIAS DA CAVIDADE ORAL REALIZADAS NO  HOSPITAL  UNIVERSITÁRIO – UNIDADE PRESIDENTE DUTRA / UFMA, DA CIDADE DE SÃO LUÍS -MA, NO PERÍODO DE 1992 A 2002

SURVEY OF ORAL CAVITY BIOPSIES IN THE UNIVERSITY HOSPITAL (UFMA) - PRESIDENTE DUTRA'S UNITY, IN SÃO LUÍS - MA, DURING THE PERIOD OF 1992-2002

• Professora Assistente da Disciplina Patologia Bucal do Departamento de Odontologia II da Universidade Federal do Maranhão/UFMA, Doutoranda em Patologia Oral – UFRN
Cirurgiã-dentista pela Universidade  Federal do Maranhão – UFMA
• Professora Assistente da Disciplina de Semiologia do Departamento de Odontologia II da Universidade Federal do Maranhão/UFMA, Doutoranda em Patologia Oral – UFRN
• Professor Adjunto da Disciplina de Cirurgia Bucal II do Departamento de Odontologia II da Universidade Federal do Maranhão/UFMA, Doutor em Clínicas Odontológicas - área de concentração Cirurgia Buco-Maxilo-Facial / FOP-UNICAMP
• Professora Doutora do Programa de Pós-Graduação em Patologia Oral da Faculdade de Odontologia da UFRN

Correspondência para:
Maria Carmen da Cruz
e-mail: carmen@patologiaoral.com.br
Rua dos Rouxinóis, Condomínio Alphaville, bloco I, apto 102 Renascença II
São Luís - MA
Cep: 65075-630

Resumo

Palavras-Chave: lesões orais, patologia bucal, epidemiologia

O objetivo deste trabalho foi realizar um levantamento das lesões orais do Hospital Universitário - Unidade Presidente Dutra, da UFMA, no período de 1992 a 2002, sendo analisadas 295 fichas clínicas com seus respectivos laudos de diagnóstico histopatológico. Foram avaliadas a freqüência das lesões orais examinadas, a localização anatômica e a distribuição das mesmas quanto ao tipo, sexo e idade. Cada caso foi classificado em onze diferentes grupos, apresentando-se número e índice percentual das lesões de maiores ocorrências. Os resultados demonstraram um predomínio das lesões proliferativas não neoplásicas, com sessenta casos; a hiperplasia fibrosa inflamatória representou a entidade mais comum, sendo o sexo feminino mais envolvido e na  primeira década de vida ocorreu um maior percentual de casos.

Introdução

Quando o dentista se depara com uma lesão de tecido mole na cavidade oral, o procedimento de biópsia é freqüentemente indicado para confirmar o diagnóstico sugestivo. A biópsia é um método confiável, fácil e seguro para auxiliar no diagnóstico definitivo das lesões (Kahn et al., 1998).

Estudos epidemiológicos mostrando a freqüência de lesões do complexo buco-maxilo-facial são de grande importância para o cirurgião-dentista, porém tem-se observado grande variação em diferentes partes do mundo (Torreão et al., 1999).

De acordo com Birman et al. (1981), de todas as lesões de localização gengival enviadas para exame histopatológico no Serviço de Patologia Cirúrgica da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (FOUSP) destacam-se pelo  seu  número, as chamadas hiperplasias fibrosas inflamatórias, numa relação de 1,9:1, sendo a região anterior a mais prevalente e o sexo feminino predominante numa proporção de 2,9:1, e a faixa etária mais atingida aquela compreendida entre 41 a 60 anos.

Em análise de 15.783 lesões orais da Faculdade de Odontologia do Estado de Luisiana (EUA), Weir et al. (1987) concluíram que a maioria das biópsias orais foi constituída por condições infecciosas ou reativas, sendo o fibroma, o granuloma periapical, as periodontites, as mucoceles e o cisto radicular, as lesões mais freqüentemente encontradas. Os pacientes estavam entre a 3a e 6a décadas de vida, predominando o sexo feminino e a raça leucoderma.

Segundo Almeida et al. (1987), num levantamento epidemiológico de lesões orais examinadas pelo Serviço de Anatomia Patológica do Centro de Patologia Clínica e Preventiva (PREVLAB) da Faculdade de Odontologia de Piracicaba (UNICAMP), num período de 10 anos, foi observado que, após classificar as lesões em três grandes grupos, 56% foram representados por alterações não neoplásicas, 14,6% por neoplasias benignas e 29,4% neoplasias malignas, entre outras.

Em estudo epidemiológico realizado por Torreão et al. (1999), no período de 1994 a 1997, sobre a ocorrência de alterações patológicas na região buco-maxilo-facial,os autores constataram que dos 394 casos analisados, 260 eram do sexo feminino e 121 do sexo masculino, com idade média de 33,83 anos. Foram encontrados 61 diferentes tipos de lesões havendo um predomínio das lesões proliferativas não neoplásicas.

É importante e necessário realizar trabalhos epidemiológicos, a fim de se planejar e executar programas de saúde para população, bem como dos conteúdos programáticos a serem abordados nos cursos de graduação e pós-graduação de Odontologia e da área de saúde. Assim, sendo o Brasil um país de dimensões continentais, é fundamental que esses estudos sejam desenvolvidos nas suas diversas regiões, já que as diferenças sócio-econômicas, culturais e climáticas observadas apontam para uma possível distinção na prevalência dessas lesões (Torreão et al. 1999). Os resultados das lesões diagnosticadas enfatizam a importância de uma biópsia seguida do exame histopatológico o mais cedo possível, especialmente quando alterações são encontradas em áreas de grande risco (Ylipaavalniemi et al.,1987).

Considerando-se a escassez de dados epidemiológicos sobre as lesões orais diagnosticadas na cidade de São Luís-MA, objetivou-se, neste estudo, realizar um levantamento das mesmas, avaliando-se as mais freqüentes, bem como a sua distribuição quanto ao tipo, localização anatômica, faixa etária e o sexo do paciente envolvido.

Materiais e Métodos

Foi realizada uma análise das 295 biópsias orais encaminhadas ao Serviço de Anatomia Patológica do Hospital Universitário – Unidade Presidente Dutra, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), no período de 1992 a 2002, a partir das fichas clínicas e do diagnóstico histopatológico de cada caso. Foram avaliadas a localização anatômica e a freqüência das lesões examinadas, bem como a distribuição das amostras quanto ao sexo e idade dos pacientes sendo os referidos dados anotados em uma ficha previamente elaborada para esta finalidade.

Cada lesão foi agrupada de acordo com a classificação proposta por Happonen et al. (1982) composta por onze grupos: 1: Hiperplasias e lesões reativas dos tecidos moles bucais; 2: Neoplasias benignas dos tecidos moles; 3: Lesões da mucosa oral; 4: Cistos odontogênicos, não odontogênicos e pseudocistos; 5: Periapicopatias; 6: Pericoronarite e tecido folicular dentário; 7: Neoplasias odontogênicas benignas; 8: Lesões ósseas bucais (neoplasias ósseas benignas, lesões ósseas inflamatórias, hiperplasias ósseas); 9: Lesões de glândula salivar (lesões inflamatórias, císticas ou neoplásicas benignas); 10: Lesões cancerizáveis e malignas; 11: Outras. 

Resultados

Os resultados mostram que das 295 amostras diagnosticadas dos pacientes examinados, segundo a faixa etária, 66 (22,37%) casos ocorreram na primeira década de vida; 55 (18,64%) casos ocorreram na segunda década de vida; seguido da quarta década de vida com 50 (16,94%) casos.  Com relação ao sexo, 169 (57,28%) eram do sexo feminino e 126 (42,71%) eram do sexo masculino.

A tabela 1 mostra o número de biópsias distribuídas segundo os grupos estabelecidos para classificação das lesões patológicas diagnosticadas onde se observa que o maior número de casos ocorreu no grupo 1 com 60 casos, seguido do grupo 9 com 49 casos e posteriormente o grupo 2 com 44 casos.

As lesões mais freqüentes nos grupos citados anteriormente foram: grupo 1- 30 (50%) casos de hiperplasia fibrosa inflamatória e 18 (30%) casos de granuloma piogênico, grupo 2 - 19 (43,18%) casos de fibroma e 09 (20,45%) casos de hemangioma e grupo 9 - 21 (42,85%) casos de adenoma pleomórfico e 14 (28,57%) casos de mucocele.

A tabela 2 mostra a distribuição da localização anatômica mais prevalente em cada um dos grupos estabelecidos onde a gengiva prevaleceu no grupo 1 com 17 (28,3%) casos, a mucosa jugal ocorreu em 11 (25%) casos no grupo 2 e a parótida predominou no grupo 9 com 18 (36,7%) casos.

Resultados

Embora seja sabido que a biópsia de uma lesão oral seguida de exame histopatológico é um meio seguro, fácil e confiável, contribuindo para o diagnóstico definitivo da grande maioria das lesões, com riscos mínimos em realizá-la e inferiores às conseqüências de um diagnóstico errôneo, é preciso desmistificá-la tanto para o profissional, que muitas vezes tem receio em executá-la, como para o paciente, que acredita que ela seja um sinônimo de tumor maligno.

Estudos epidemiológicos mostrando a freqüência de lesões do complexo buco-maxilo-facial são de grande importância para o cirurgião-dentista, porém tem-se observado grande variação em diferentes partes do mundo, de acordo com Torreão et al. (1999).

Com base nos resultados obtidos, observou-se que 169 casos de nossa amostra, (57,28%) eram do sexo feminino e 126 (42,71%) do sexo masculino, com a idade variando entre 03 meses e 96 anos, mostrando, assim um predomínio no sexo feminino, achados que se confirmam com os trabalhos de Happonen et al. (1982); Torreão et al. (1999); Ylipaavalniemi et al. e (1987) e Weir et al. (1987). Isto pode ser indicativo, talvez, da maior utilização dos serviços odontológicos por estas pacientes, por se submeterem aos exames dentários de rotina e pela maior procura por cuidados médicos, sendo a incidência das lesões  orais,  atualmente,  maior  nas

mulheres, fato este explicado por Birman et al. (1981) e Weir et al. (1987).

No presente estudo, na maioria dos casos, observou-se que os mesmos ocorreram uma faixa etária pertencente à primeira década de vida com 66 ocorrências (22,37%), sendo este dado observado por Happonen et al. (1982).

A maioria das lesões encontradas em nosso estudo estava no grupo das lesões hiperplásicas e reativas dos tecidos moles orais, concordando com os achados de Almeida et al. (1987), Torreão et al. (1999); Ylipaavalniemi et al. (1987) e Weir et al. (1987). A hiperplasia fibrosa inflamatória apareceu como a lesão mais freqüente, corroborando com os achados de Torreão et al. (1999) e Ylipaavalniemi et al. (1987). Esta entidade representou aproximadamente 50% das lesões do grupo, cuja faixa etária mais acometida no nosso trabalho foi a 4a década de vida, concordando com Birman et al. (1981) cuja observação de que a faixa etária mais afetada está ao redor dos 40 anos se contrapõe às demais lesões proliferativas que ocorrem mais precocemente, tendo em vista, provavelmente, a presença de menor potencial irritativo devido à pouca utilização de aparelhos protéticos e outros tipos de restaurações em faixas etárias mais jovens.

Segundo Ylipaavalniemi et al. (1987) tem sido estimado que mais de 200 doenças podem afetar a cavidade oral humana. Certas lesões têm suas próprias características na boca, sendo importante para o clínico saber com que freqüência os diversos tipos de lesões ocorrem em localizações anatômicas diferentes.

Tabela 1 - Número de biópsias encaminhadas ao Serviço de Anatomia Patológica do Hospital Presidente Dutra/ UFMA, distribuídas segundo os grupos estabelecidos, no período de 1992 a 2002

Legenda - Grupo 1: Hiperplasias e lesões reativas dos tecidos moles bucais; Grupo 2: Neoplasias benignas dos tecidos moles; Grupo 3: Lesões da mucosa oral; Grupo 4:Cistos odontogênicos, não-odontogênicos e pseudocistos dos maxilares e dos tecidos moles; Grupo 5: Periapicopatias; Grupo 6: Pericoronarite e tecido folicular dentário; Grupo 7: Neoplasmas odontogênicos; Grupo 8: Lesões ósseas bucais; Grupo 9: Lesões de glândula salivar; Grupo 10: Lesões cancerizáveis e malignas; Grupo 11: Outros


Tabela 2 - Distribuição dos casos de biópsias encaminhadas ao Serviço de Anatomia Patológica do Hospital Presidente Dutra/ UFMA em cada um dos grupos segundo a localização anatômica, no período de 1992 a 2002estabelecidos, no período de 1992 a 2002

Legenda – Vide tabela anterior

Conclusões

De acordo com a metodologia empregada e com base nos resultados obtidos, concluiu-se que:

-As lesões hiperplásicas e reativas dos tecidos moles da cavidade bucal, destacando-se a hiperplasia fibrosa, constituíram o grupo de lesões mais freqüentemente observadas;
-A gengiva foi a região anatômica mais acometida pelas lesões;
- O sexo feminino foi o mais freqüente e um maior percentual de casos ocorreu na primeira década de vida.

Abstract

The aim of this research was to realize a survey of oral lesions in the University Hospital (UFMA)-Presidente Dutra's Unity, during the period of 1992-2002, 295 clinical files were analyzed with their retrospectives histopathological diagnosis certificates. The prevalence of oral lesions recorded, the anatomic location and the specimens distribution about the type, sex and age were evaluated. Each case was classified in eleven distinct groups, presented number and that lesions which obtained the higher percentage of occurrences. The results demonstrated predominance of proliferative non neoplasic lesions, with sixty cases, fibrous inflammatory hyperplasia represented the most common entity, the feminine sex predominated and the higher percentage of these cases occurred in the first life decade.

Keywords: epidemiology, oral pathology, oral lesions

Referências Bibliográficas

Almeida OP et al. Levantamento de lesões bucais. RGO 1987; 6:471-473.
Birman EG et al. Patologia gengival-Hiperplasia fibrosa inflamatória localizada. ARS CURANDI em Odontologia 1981; 32:.77-84.
Happonen RP et al. A survey of 15.758 oral biopsies in Filand. Proc Finn Dent Soc  1982.; 78(4):201-206.
Kahn M.A et al. The dos and don’ts of an oral mucosal biopsy performed by the general dentist. J Tenn Dent Assoc 1998; 78(2):28-31.
Miller AS & Pullon FA. Survey of tissue – diagnostic services in United States dental Schools: 1953-1980. Oral Surg 1982; 53:88-590.
Thompson CC. A six year regional report on the oral tumor registry and lesions diagnosed in the school of dentistry biopsy service University of Oregon Health Sciences Center. J Oral Med 1981; 36(1):11-15.
Torreão ACR et al. Levantamento epidemiológico de biopsias da região buco-maxilo-facial encaminhadas ao laboratório de Patologia Bucal da Faculdade de Odontologia de Pernambuco. Revista do CRO de Pernambuco Recife, 1999; 2(2):119-125.



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