AMELOBLASTOMA PERIAPICAL MIMETIZANDO LESÃO
DE NATUREZA ENDODÔNTICA
Rivadávio Fernandes
Batista de AMORIM1
Roseana de Almeida FREITAS2
1
Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação
em Patologia Oral da Universidade Federal do Rio Grande do Norte
- UFRN.e-mail: rivadavio@patologiaoral.com.br
2
Coordenadora do Programa de Pós-Graduação
em Patologia Oral da Universidade Federal do Rio Grande do Norte
- UFRN.e-mail: roseana@patologiaoral.com.br
.

Resumo
Dentre os tumores de origem odontogênica, o ameloblastoma
se destaca em função de suas características
clínicas, radiográficas e histopatológicas.
Apesar de sua natureza benigna, possui grande potencial de
invasão nos tecidos adjacentes e tendência a
recidivar. No presente trabalho, relata-se um caso de ameloblastoma
no paciente G.S.M, 54 anos, raça branca, que apresentou
lesão radiolúcida unilocular, bem-delimitada
envolvendo o ápice do dente 44 o qual havia sido submetido
a tratamento endodôntico 1 ano anteriormente. Sob suspeita
clínica de cisto radicular não responsivo ao
tratamento endodôntico, realizou-se a remoção
cirúrgica da lesão e o material foi encaminhado
para exame histopatológico que revelou tratar-se de
ameloblastoma. O presente relato fundamenta a necessidade
da análise microscópica de todo e qualquer material
coletado da cavidade oral, uma vez que, mesmo diante de imagens
clínicas e radiográficas sugestivas de lesões
indolentes, outras condições associadas a comportamentos
biológicos mais agressivos, como o ameloblastoma, podem
assim se manifestar.
Palavras-chave: Tumores
odontogênicos, ameloblastoma, diagnóstico
Abstract
Ameloblastoma awakes much interest among odontogenic tumors
due to its clinical, radiological and histopathological characteristics.
Although its benign nature, ameloblastoma is a locally destructive
tumor with a propensity for recurrence. The present paper
reports one case of ameloblastoma in a male patient GSM, 54
years, white race, that presented a well-delimited radiolucency
involving the apex of the tooth 44 which had been endodontically
treated 1 year previously. Under the clinical suspicion of
radicular cyst, the lesion was excised through surgical removal
and the material was submitted for histopathologic examination
that diagnosed ameloblastoma. The present case bases the necessity
of microscopical analysis of any collected material from oral
cavity since clinical and radiological images suggestive of
indolent injuries can represent other conditions associated
to a more aggressive biological behavior such as ameloblastoma.
Keywords: Odontogenic tumor, ameloblastoma,
diagnosis.

Introdução
O ameloblastoma
representa um tumor de epitélio odontogênico dos
maxilares que se destaca pelo seu curso localmente agressivo
a despeito de sua natureza benigna, o que o torna alvo de numerosas
investigações (Medeiros et al. 1997, Souza et
al. 2001, Queiroz et al. 2002, Wakoh et al. 2002, Kumamoto H
et al. 2003, Vered et al. 2003). Corresponde a aproximadamente
1% de todos os cistos e tumores odontogênicos dos maxilares
com maior incidência na região posterior da mandíbula
(Neville et al. 1998). A histogênese da lesão pode
dar-se a partir de remanescentes do órgão do esmalte,
do revestimento epitelial de um cisto odontogênico ou
das células da camada basal da mucosa oral (Santos et
al. 2000). São reconhecidos três diferentes padrões
clinico-radiográficos dos ameloblastomas, a saber: sólido
convencional ou multicístico, unicístico e periférico
(Martins et al. 1999, Santos et al. 2001). Podem exibir diversos
arranjos histológicos não sendo detectadas correlações
entre o padrão histológico com o comportamento
clínico tumoral (Neville et al 1998).
Em função
da grande variedade de modalidades terapêuticas e variedade
clinico-radiográfica, muita controvérsia existe
acerca da abordagem terapêutica mais apropriada para os
ameloblastomas, as quais destacam-se a ressecção
(marginal ou segmental), enucleação, curetagem,
marsupialização, crioterapia ou a associação
de algumas destas. As taxas de recidiva variam de acordo com
a técnica cirúrgica aplicada e o tipo clinico-radiográfico
(Curi et al. 1997, Neville et al. 1998, Nakamura et al. 2002,
Queiroz et al. 2002).
Numerosas lesões
radiolúcidas dos maxilares podem apresentar aspectos
radiográficos semelhantes ao do ameloblastoma (Hollows
et al. 2000, Rosenstein et al. 2001). A localização
de uma ameloblastoma na região periapical pode, por vezes,
gerar uma dificuldade diagnóstica com conseqüentes
implicações terapêuticas e prognósticas.
O presente trabalho tem como objetivo reportar um caso de ameloblastoma
mimetizando lesão periapical de modo a orientar o clínico
em uma correta conduta frente a situações como
esta.
Relato do Caso
Paciente G.S.M.,
sexo masculino, 54 anos, raça branca procurou serviço
odontológico para atendimento de rotina. Exames radiográficos
revelaram a presença de imagem radiolúcida na
região anterior mandibular. Durante a anamnese, o mesmo
informou ter realizado há cerca de um ano uma terapêutica
endodôntica do dente 44 a qual não promoveu regressão
de lesão periapical. Procedeu-se com a realização
de exame clínico intra-oral sendo os achados clínicos
compatíveis com aspectos de normalidade da mucosa oral.
Realizou-se exame radiográfico panorâmico através
do qual identificou-se imagem radiolúcida, unilocular,
circunscrita e bem-delimitada, envolvendo o ápice do
referido dente, o qual encontrava-se tratado endodonticamente,
exibindo, ainda, reabsorção radicular externa
do mesmo (Figuras 1 e 2). Sob suspeita clínica de cisto
radicular, realizou-se remoção cirúrgica
da mesma e o material foi remetido para exame histopatológico
na Disciplina de Patologia Oral da UFRN e este revelou tratar-se
de ameloblastoma (Figuras 3 a 6), sendo recomendada, então,
a reavaliação e a proservação do
caso, que até o presente não apresentou recidivas
após 3 anos de proservação.
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| Figuras
1 e 2 - Radiografia panorâmica exibindo
imagem radiolúcida, circunscrita, bem-delimitada,
envolvendo ápice do 44 que exibe reabsorção
externa e deslocamento dentário |
Figura
3 - Proliferação de células
neoplásicas para o interior de extensa cavidade
cística (HE - 40x) |
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| Figura
4 - Proliferação de células
neoplásicas delimitando ampla cavidade cística
(HE - 40x) |
Figura
5 - Ninhos neoplásicos com arranjo frouxo
central e células em paliçada na periferia
(HE - 100x) |
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Figura
6 - Detalhe dos epiteliais exibindo degeneração
cística (HE - 200x) |
Discussão
Em função
de suas características clínicas peculiares
e diversidade histopatológica o ameloblastoma tem sido
um dos tumores odontogênicos mais estudados encontrado-se
atualmente uma literatura científica bastante ampla
com relação aos seus diversos aspectos (Medeiros
et al. 1997, Souza et al. 2001, Queiroz et al. 2002, Wakoh
et al. 2002, Kumamoto H et al. 2003, Vered et al. 2003). De
acordo com Santos et al. (2001) o ameloblastoma corresponde
à segunda lesão de maior ocorrência dentre
os tumores de origem odontogênica, representando cerca
de 30% dos casos.
O reconhecimento e distinção
das diferentes formas de apresentação do ameloblastoma
são fundamentais, pois estão intimamente ligados
ao tratamento e prognóstico (Neville et al. 1998, Queiroz
et al. 2002). Assim sendo, 3 tipos são estabelecidos:
intra-ósseo multicístico ou sólido convencional,
unicístico intra-ósseo e o tipo periférico.
No tipo sólido, são reconhecidos 6 variantes
histopatológicas: folicular, plexiforme, desmoplásico,
acantomatoso, basalóide e de células granulares
(Neville et al. 1998, Santos et al. 2000).
Segundo relatos de Neville
et al. (1998), os ameloblastomas sólidos possuem uma
aparência radiográfica clássica de multilocularidades
descritas como "bolhas de sabão" ou "favo
de mel". Entretanto, algumas lesões sólidas
e a maioria dos ameloblastomas unicísticos mostram-se
como lesões radiolúcidas uniloculares bem delimitadas
e quando presentes na região periapical podem enganosamente
se assemelharem a patologias de origem endodôntica.
Lesões osteolíticas
resultando em uma imagem radiográfica radiolúcida
na região periapical são rotineiramente evidenciadas
na prática odontológica. Talvez em função
desta grande freqüência, tais lesões muitas
vezes não são valorizadas durante o exame radiográfico.
Entretanto, é valido salientar que não apenas
tumores odontogênicos, dentre estes o ameloblastoma,
podem mimetizar simples lesões perirradiculares, mas
outras patologias também tem sido reladas na literatura
apresentando-se como lesões periapicais, como metástases
tumorais, tumores intra-ósseos primários tanto
benignos quanto malignos dentre outras (Seddon et al. 1993,
Heng & Heng 1995, Hollows et al. 2000, Talacko et al.
2000, Abbott 2001, Motamedi 2002).
Walton (1998) infere que
a submissão de espécimes oriundos de cirurgias
periapicais para exame histopatológico possui verdadeiramente
pouco mais do que interesse acadêmico, mas não
mostra vantagens para o paciente além dos custos adicionais.
Este autor ainda coloca outros pontos tais como acurada anamnese
e pouca qualidade do material biopsiado para não justificar
a realização de exame histopatológico.
Discordamos do ponto de vista do presente autor, e o presente
caso ilustra claramente a necessidade de uma maior importância
na conduta de lesões localizadas na região periapical
e da necessidade de exame histopatológico de todas
as lesões provenientes desta região uma vez
que apenas desta forma um preciso diagnóstico poderá
ser instaurado.

Correspondência
para os autores:
Roseana de Almeida Freitas
e-mail: roseana@patologiaoral.com.br
Universidade Federal do Rio Grande do NorteDepartamento
de Odontologia
Programa de Pós-Graduação em Patologia
Oral
Av Senador Salgado Filho 1787Cep: 59056-000Natal-RN
Brasil
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