ANOREXIA NERVOSA E BULIMIA NERVOSA E SEUS EFEITOS SOBRE A SAÚDE BUCAL
   EFFECTS OF ANOREXIA NERVOSA AND BULIMIA NERVOSA ON ORAL HEALTH

   
Bárbara Gomes de Melo SEABRA1, Renata Quirino de ALMEIDA2, Juliana Morais de Santana FERREIRA3, Flávio Roberto Guerra SEABRA4


1Mestre em Dentística Restauradora pela Faculdade de Odontologia de Bauru, Universidade de São Paulo FOB-USP, Professora das disciplinas de Dentística, Oclusão e Saúde Coletiva da Universidade Potiguar -UNP
2Aluna do 4º ano do curso de Odontologia da Universidade Potiguar-UNP. e-mail: renata.almeida@unp.br
3Aluna do 4º ano do curso de Odontologia da Universidade Potiguar-UNP. e-mail: juliana_m@unp.br
4Mestre em Periodontia pela FOB-USP, Professor das disciplinas de Cirurgia, Periodontia e Implante da UNP, Doutorando em Patologia Oral pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte-UFRN

Recebido em 23 de junho de 2004
Revisado em 05 agosto de 2004
Aceito em 29 de agosto de 2004

Resumo

Anorexia nervosa e Bulimia nervosa são doenças de transtornos alimentares de ordem comportamental que têm efeitos sobre a saúde bucal, podendo ser diagnosticadas primeiramente pelo cirurgião-dentista. Anorexia nervosa é definida como a inanição deliberada e auto-imposta, seguida de busca constante de magreza e medo mórbido de engordar. Bulimia nervosa caracteriza-se pela ingestão compulsiva de grande quantidade de alimentos e ações para evitar o ganho de peso, como, por exemplo, o vômito auto-induzido. Pacientes com estes distúrbios apresentam emagrecimento significativo e regurgitam freqüentemente, provocando erosão dental, o que causa uma destruição característica nos tecidos duros das coroas dos dentes, colocando o cirurgião-dentista como um profissional de grande importância no diagnóstico desses distúrbios. Este artigo apresenta uma revisão de literatura a respeito da contribuição do cirurgião-dentista no diagnóstico da anorexia nervosa e bulimia nervosa, através do conhecimento dos sinais e sintomas destas doenças de ordem comportamental.
Palavras-Chave: Anorexia nervosa, bulimia, erosão de dente.

Abstract

Nervous anorexia and bulimics nervosa are behavioral alimentary disorders with some effects in oral health and can be diagnosed by the dentist. Nervous anorexia can be defined as a deliberate and auto-imposed inanition followed by a constant search for getting thinner and a morbid fear to get fat. Bulimics is defined as the compulsive ingestion of big amounts of food and action to prevent the weight gain by different ways such as auto induced vomit. The patients with these disorders present significant thinning and characteristic dental hard tissue destructions caused by frequent episodes of vomits and regurgitation. The dental hard tissue destruction is an important feature in order to early diagnose these diseases. This work consists in a review with the aim to provide the dentists with knowledge of characteristics signs of these diseases especially those related with oral structures.
Keywords: Nervous anorexia, bulimics, tooth erosion.



Introdução
Anorexia nervosa e bulimia nervosa são doenças de transtornos alimentares de ordem comportamental, que afetam, principalmente, mulheres adolescentes e adultos mais jovens, com prevalência de 0,5 a 1% para anorexia e 1 a 3% para bulimia (Mahan & Escott-Stump, 2002).
A anorexia nervosa é um distúrbio de comportamento conceituado como inanição deliberada e auto-imposta, seguida de uma implacável busca de magreza e por um medo mórbido de engordar, levando a sérios graus de emagrecimento (Traebert & Moreira, 2001). Tem como característica fundamental a manutenção voluntária do peso corporal em limites inferiores ao esperado para a idade e estatura. Visando a perda de peso, os pacientes utilizam algumas estratégias para o emagrecimento, como exercícios físicos intensos, uso de laxantes, diuréticos, anorexígenos e vômitos auto-induzidos, entre outros (Teixeira Neto, 2003).
A bulimia nervosa é um distúrbio caracterizado por freqüentes episódios de consumo compulsivo excessivo de alimentos, seguidos por um ou mais métodos compensatórios impróprios para prevenir o ganho de peso, como o vômito, uso abusivo de laxativos, diuréticos, jejuns prolongados ou excesso de atividade física (Mahan & Escott-Stump, 2002).
A perda de peso é o primeiro sintoma em ambos os distúrbios, os quais apresentam também efeitos sobre a saúde bucal, cabendo ao cirurgião-dentista o
conhecimento destas doenças, suas causas e efeitos, para que se possa diagnosticar e conduzir o tratamento adequado.
Transtornos alimentares são síndromes psiquiátricas complexas e ainda pouco compreendidas. A associação de alterações psicopatológicas, nutricionais e somáticas situa os transtornos alimentares em um campo multidisciplinar, onde o trabalho entre vários profissionais de saúde tem papel fundamental (Teixeira Neto, 2003).

Revisão da Literatura e Discussão
A anorexia nervosa e a bulimia nervosa são doenças de transtornos alimentares de ordem comportamental onde, em ambos, a busca por métodos que reduzam o peso é um sinal constante. A diferença entre as duas identidades é que na anorexia evita-se comer e se impõem outros métodos para diminuir o peso, enquanto na bulimia o paciente consome de forma excessiva e deliberadamente alimentos e depois opta por meios compensatórios para eliminar o peso.
O ato compensatório mais comum é o vômito, observado em 80 a 90% dos indivíduos com bulimia nervosa. Os pacientes estimulam o reflexo da garganta com o dedo ou instrumentos (como a escova de dente e talheres, entre outros), provocando a regurgitação. O xarope de Ipeca, que é feito das raízes da planta Ipecacuanha, para uso da indústria farmacêutica, é um irritante violento que estimula os sistemas gástrico e bronquial, abaixa febre e previne a formação de cisto em disenteria motivada por ameba e também é usado para induzir o vômito em caso de intoxicação. Quando em excesso causa vômito severo e diarréia. Apenas deve ser usado por médicos qualificados, porém é utilizado freqüentemente por pacientes com anorexia e bulimia nervosa para induzir o vômito (Mahan & Escott-Stump, 2002).
Os alimentos escolhidos pelos bulímicos para ingestão nas crises compulsivas, geralmente são de fácil acesso, muitas vezes ricos em carboidratos e evitados em dietas hipocalóricas, como doces, chocolates, biscoitos, leite condensado (Teixeira Neto, 2003).
Muitos pacientes com este distúrbio apresentam ansiedade, dependência química e alterações de personalidade. Os episódios bulímicos provocam fortes sentimentos de vergonha, tristeza e autocondenação (Teixeira Neto, 2003).
A diferenciação entre bulimia nervosa e anorexia nervosa pode ser difícil, tendo em vista que muitos pacientes apresentam sintomas de ambos os quadros clínicos. Essa distinção é realizada, principalmente, pela presença de emagrecimento significativo e distúrbios endocrinológicos nos pacientes com anorexia nervosa (Teixeira Neto, 2003).
Nos transtornos alimentares as complicações clínicas mais freqüentes estão associadas aos hábitos purgativos, particularmente à indução voluntária de vômito. O ato de regurgitar provoca problemas dentais e o cirurgião-dentista é potencialmente o primeiro profissional de saúde a diagnosticar a doença, devido a perdas de substância dental. Tais perdas de substância dental são chamadas de erosão dental (Traebert & Moreira, 2001).
Erosão dental é a perda patológica, crônica, localizada e indolor do tecido dental duro submetido quimicamente ao ataque de ácidos sem o envolvimento de bactérias. Pode ser extrínseca ou intrínseca (Baratieri et al. 2001).
A erosão extrínseca é o resultado da ação de ácidos exógenos provenientes de medicamentos ou da dieta alimentar. A erosão intrínseca é o resultado da ação do ácido endógeno, ou seja, o ácido gástrico que entra em contato com os dentes durante a regurgitação ou durante o refluxo alimentar (baratieri et al. 2001).
A erosão ainda subdivide-se de acordo com sua severidade e localização. Segundo Caldeira et al. (2000) pode ser Classes I, II e III com as subdivisões a, b, c e d. Classe I ou superficial é a erosão que acomete apenas a superfície de esmalte. A classe II ou localizada, quando atinge menos de 1/3 de dentina. Já a classe III ou extensa, descreve destruições maiores de 1/3 de dentina. As denominações a, b, c e d indicam a face acometida pela erosão: a, para superfície vestibular; b, para lingual ou palatina; c, para oclusal ou incisal e d, para superfícies múltiplas.
A severidade e progressão da erosão não dependem apenas da freqüência e duração do vômito, mas também de hábitos de higiene bucal, como a escovação logo após a regurgitação, pois o esmalte encontra-se desorganizado e pode ser removido facilmente pela abrasão durante a higiene bucal (Traebert & Moreira, 2001).
A regurgitação crônica, quer de origem somática ou psicossomática, leva com freqüência a uma distribuição típica de erosão dental dentro das arcadas dentárias, correspondendo à trajetória do ácido gástrico representado pelo ácido clorídrico, regurgitado pelo dorso da língua ao longo das superfícies oclusais dos dentes superiores e inferiores e no vestíbulo mandibular. Este tipo de erosão parece afetar os dentes superiores e inferiores de diferentes maneiras e foi, durante algum tempo, denominado de perimólises (Baratieri et al. 2001).
Embora afete as superfícies palatinas e oclusais, de todos os dentes superiores, a erosão relacionada a estes distúrbios alimentares é confinada às superfícies vestibulares e oclusais dos molares e pré-molares inferiores. As superfícies vestibulares dos dentes superiores não entram em contato com o ácido e ainda são protegidas pelo efeito neutralizante da saliva da parótida. As superfícies linguais dos dentes inferiores são cobertas pela língua e, portanto, poupadas do contato com o ácido. Além disso, são banhadas pelo fluido oral das glândulas submandibular e sublingual (Baratieri et al. 2001).
Uma outra característica deste tipo de erosão é que as restaurações, tanto de amálgama como de resina composta, permanecem intactas e se projetam acima das superfícies dentais, dando à restauração o aspecto de ilha (Baratieri et al. 2001).
Devido à perda de substâncias dentárias o paciente pode apresentar bordas incisais finas ou fraturadas, diastemas e pseudomordida aberta. Além disto, pode ocorrer perda de dimensão vertical, devido ao desgaste das superfícies oclusais dos dentes posteriores. Também pode ocorrer a perda do brilho normal dos dentes, cáries radiculares e sensibilidade dental à alteração de temperatura acontece por perda de esmalte dentário. A irritação constante advinda do vômito ácido causa aumento das papilas linguais, aumento assintomático das parótidas, xerostomia, irritação da mucosa oral e queilite, entre outras conseqüências (Pegoraro et al. 2000).
A dieta rica em carboidratos e açúcares consumida pelo paciente com bulimia nervosa favorece, ainda, a presença de cáries que são agravadas devido à xerostomia. A xerostomia pode ser acentuada pelo uso de medicamentos antidepressivos usados pelos pacientes portadores de ambas as doenças durante o tratamento.
Muitos pacientes com estes distúrbios são dependentes químicos de drogas (álcool, fumo, medicamentos, etc), o que favorece o processo de erosão dental, xerostomia, formação do biofilme bacteriano e aumento de susceptibilidade à cárie (Mahan & Escott-Stump, 2002).
Pacientes com anorexia nervosa possuem uma aparência típica e característica auxiliando o cirurgião-dentista no diagnóstico deste distúrbio, como o corpo esquelético pré-pubescente o que freqüentemente faz com que elas pareçam mais jovens do que são. As características físicas incluem lanugem, cabelo sem brilho e quebradiço, cianose de extremidades e pele seca que pode apresentar-se amarelada pela a hipercarotenemia (Mahan & Escott-Stump, 2002).
Os sinais clínicos e sintomas da bulimia nervosa são mais difíceis de detectar, porque os pacientes apresentam, usualmente, peso normal e são discretos no comportamento. Quando os episódios de vômitos ocorrem pode haver evidências clínicas como marcas no dorso da mão, utilizada para estimular o reflexo da garganta, que é conhecido como Sinal de Russel, além das glândulas parótidas aumentadas e feridas na garganta (Mahan & Escott-Stump, 2002).
O tratamento de pacientes com distúrbios alimentares é melhor realizado por uma equipe multiprofissional, formada por médicos, nutricionistas, psicoterapeutas e cirurgiões- dentistas.
Ao cirurgião-dentista compete alertar o paciente sobre o perigo das escovações excessivas após o vômito e prescrever bochechos com água e bicarbonato de sódio para neutralizar o pH do ambiente bucal, além de aliviar a dor com a proteção do complexo dentinopulpar exposto, com a utilização de cimentos de ionômero de vidro, vernizes fluoretados, ou se necessário, tratamento endodôntico. Ainda, prescrever a utilização de cremes dentais com alta concentração de flúor e baixa abrasividade e realizar aconselhamento dietético no sentido de evitar alimentos e bebidas ácidas (Pegoraro et al. 2000).
O tratamento restaurador deve ser realizado como forma de auxiliar o tratamento psicológico, na tentativa de aumentar a auto-estima do paciente já que muitos só procuram o dentista quando há comprometimento estético, podendo variar de uma simples restauração até reabilitações bucais complexas em pacientes com perda da dimensão vertical. As coroas de cerâmica pura, cimentadas sobre a dentina remanescente com material adesivo, são relatadas como boa alternativa em casos onde o paciente continua com hábito de vômito induzido e o insucesso das restaurações diretas nestes pacientes se deve ao fato das estruturas de suporte permanecerem em um ambiente extremamente ácido (Traebert & Moreira, 2001).
A farmacoterapia é de grande valor na bulimia nervosa, tanto na redução dos sintomas compulsivos/purgativos, como no tratamento das co-morbidades associadas. Os antidepressivos são a medicação de primeira escolha, tendo sido comprovado um efeito específico antibulínico, reduzindo de forma significativa o número e a intensidade dos episódios bulínicos. Na anorexia nervosa os psicofármacos são utilizados principalmente no tratamento de co-morbidades psiquiátricas e também na prevenção de recaídas durante a fase de manutenção (Teixeira Neto, 2003).
A atenção psicoterápica é um dos aspectos centrais do tratamento e deve ser instituída assim que possível, enquanto a reabilitação nutricional inclui a avaliação nutricional, dietoterapia e educação nutricional. Sendo, assim, torna-se importante que todos os profissionais aqui citados sejam incluídos na equipe, favorecendo o tratamento do paciente.

Considerações Finais
-Compete ao cirurgião-dentista investigar e certificar-se que o desgaste dental e outros sinais são realmente provenientes da prática da regurgitação;
-Havendo confirmação de que o paciente regurgita pelo menos 2 vezes por semana durante 3 meses, além de demonstrar preocupação com o peso corporal, presença de Sinal de Russel, glândula parótida aumentada, feridas na garganta, dores abdominais, recusa em manter o peso acima do mínimo normal para a idade e altura, o diagnóstico pode ser concluído;
-Cabe ao cirurgião-dentista planejar o tratamento adequado para os efeitos da doença nas estruturas bucais.
-Os transtornos alimentares de ordem comportamental devem ser tratados de forma interdisciplinar, sendo necessário o acompanhamento médico devido às alterações sistêmicas causadas, avaliação nutricional para reeducar a alimentação, tratamento odontológico para proporcionar uma boa saúde bucal e suporte psicológico para que o paciente possa lidar com o distúrbio e aceitar o tratamento.


   

Correspondência para:
Bárbara Gomes de Melo Seabra
e-mail: fbseabra@uol.com.br
Universidade Potiguar – UnP
Faculdade de Odontologia
Av. Senador Salgado Filho, 1610,
Lagoa Nova, Natal-RN,
Cep: 59.056-000


Referências Bibliográficas


Baratieri, L.N. et al. Odontologia restauradora: fundamentos e possibilidades. São Paulo: Santos, 2001.
Caldeira, T.H., Napole, R.C.D., Busse, S.R. Erosão dental e a contribuição do cirurgião-dentista no diagnóstico de bulimia nervosa. Revista da APCD 2000; 54: 465-67.
Lozer, A. C. et al. Aspectos Oclusais nas lesões cervicais não-cariosas. UFES – Revista Odontológica de Vitória 2000; 12: 36-41.
Mahan, L.K, Escott-Stump, S. Alimentos, nutrição e dietoterapia. 10. ed. São Paulo: Roca, 2002.
Pegoraro, C.N. et al. Perimólise: etiologia, diagnóstico e prevenção. Revista da APCD 2000: 156-61.
SOBRAL, M.A.P. et al. Influência da dieta líquida ácida no desenvolvimento de erosão dental. Pesquisa Odontológica Brasileira 2000; 14: 406-10.
TEIXEIRA NETO, F. Nutrição Clínica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan,
2003.
TRAEBERT, J., MOREIRA, E.A.M. Transtornos alimentares de ordem comportamental e seus efeitos sobre a saúde bucal na adolescência. Pesquisa Odontológica Brasileira 2001; 15: 359-63.



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